Psicóloga comenta: Porque algumas críticas incomodam

Por que Algumas críticas incomodam tanto?

Antes de falar sobre os incômodos causados pela crítica, é necessário definir o que é crítica.

 

Por que Algumas Críticas Incomodam Tanto? 

No sentido filosófico inaugurado por Kant, “crítica” não significa censura ou reprovação, mas exame rigoroso. Para Kant, criticar é submeter algo à análise das suas condições, limites e fundamentos. 

Trata-se de um exercício racional de investigação que busca compreender a validade, a coerência e os pressupostos de uma afirmação ou ação.

Assim, crítica é, essencialmente, um juízo fundamentado — um ato de avaliar à luz de critérios. Ela implica reflexão, argumentação e responsabilidade racional. 

A critica nossa de cada dia 

Quando deslocamos essa noção para o campo das relações humanas, podemos entender a crítica como um julgamento que deveria estar apoiado em critérios claros e justificáveis, e não em impressões arbitrárias ou generalizações.

Portanto, em sua origem conceitual, crítica é um exercício de razão. 

O desconforto que muitas vezes sentimos pode decorrer justamente do afastamento dessa dimensão racional — quando o julgamento não se apresenta como exame fundamentado, mas como opinião desprovida de critérios explícitos.

Em outras palavras: podemos dizer que criticar não é atacar, mas avaliar. O problema começa quando essa avaliação deixa de ser racional e passa a ser apenas opinião impulsiva, julgamento apressado ou tentativa de diminuir o outro. 

 Psicóloga comenta: Porque algumas críticas incomodam 

Algumas críticas incomodam até a medula — não apenas pelo que foi dito, mas por quem disse.

Aqui entra uma questão importante: essa pessoa tem autoridade para fazer essa avaliação?
E autoridade, nesse caso, não significa poder ou hierarquia, mas competência e legitimidade. Ela conhece os fatos? Estava presente na situação? Tem experiência ou responsabilidade sobre aquilo que está avaliando?

Na perspectiva kantiana, todo julgamento precisa de fundamento. E autoridade.

Quando alguém critica sem conhecer o contexto ou sem ter critérios claros, o que parece é que não estamos diante de uma análise racional, mas de uma opinião solta.

Além disso, o contexto também influencia muito o impacto da crítica.

  • Era o momento adequado para falar aquilo?
  • O assunto ainda é atual ou é algo do passado já resolvido?
  • A crítica foi feita em particular ou expôs a pessoa diante de outros?

Mesmo uma observação pertinente pode se tornar inadequada se for feita no tempo errado ou da maneira errada. Kant nos lembra que o uso da razão exige responsabilidade — e isso inclui considerar circunstâncias e consequências.

É aí que surgem os incômodos.

Muitas vezes, o desconforto diante de uma crítica aparece porque ela não cumpre esse papel racional que Kant propõe. Em vez de analisar um comportamento específico, a crítica pode:

  • Soar injusta, quando a percepção de quem critica não corresponde aos fatos ou ignora o contexto;

  • Ter caráter depreciativo, quando não busca melhorar algo, mas diminuir a pessoa;

  • Generalizar, atacando “quem você é” em vez de apontar “o que você fez”;

  • Revelar interesse próprio, quando o objetivo é beneficiar quem critica e não contribuir para o crescimento do outro.

Quando a crítica é fundamentada, específica e respeitosa, ela pode ser uma ferramenta de aprendizado. Mas quando ela perde o critério, perde também o caráter racional — e passa a provocar reações como raiva, vergonha ou defensividade.

Desenvolver maturidade emocional envolve justamente aprender a fazer essa distinção: perceber quando estamos diante de um exame legítimo das nossas atitudes e quando estamos apenas recebendo um julgamento sem fundamento.


 

 

 

Referência em ABNT

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

(Obra original publicada em 1781.)

 

 




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