Psicólogos: O que não se deve falar para o paciente

Psicólogos: O que não se deve falar para o paciente 
Psicólogos: O que não se deve falar para o paciente

Em outro tópico, abordei O que o Paciente deve ou não falar em uma sessão de terapia

Este artigo é direcionado especialmente para os Psicólogos que acompanham meu trabalho, e/ou fazem terapia e supervisão comigo, por isso está aberto à colocações nos comentários. Podem divulgar, mas não se esqueçam de citar a fonte.

Ideias que complementem esta linha de raciocínio são sempre bem vindas. Críticas também.




O que não se deve falar para o paciente

Em todos os exemplos abaixo, existem formas mais sutis e/ou indiretas de falar estas coisas (as que PRECISEM ser ditas), ou simplesmente fazer o paciente perceber por si só, o que é muito mais gratificante para ele(ela) e produtivo para nós, Psicólogos.

1. Frases que sugiram juízo de valor ou rotulação:

  • "Você é preguiçoso", "Você é desatento", "você está muito acima (ou abaixo) do teu peso", "você se veste muito bem (ou muito mal)"

2. Afirmar que existe um transtorno mental, sem ter avaliado (por meio de instrumentos) as reais condições do paciente.

  • "você deve ter TDAH", 
  • "você deve ser bipolar", 
  • "você deve ser dependente afetivo", 
  • "você deve ser narcisista"

3. Dar conselhos diretos

  • "Você tem de trocar de emprego, de namorado(a), de casa, etc..."
Exceto quando a situação exige, como por exemplo situações em que o paciente está correndo graves riscos. 

4. Fazer ameaças psicológicas

  • "Se você não se cuidar, vai ficar cada vez pior", "Enquanto você não trocar de emprego vai continuar sofrendo"; 

5. Elogiar

  • "Você é uma moça tão bonita, não devia chorar desse jeito", 
  • "Como pode uma pessoa inteligente como você cometer um erro destes?"

6. Demonstrar pena, dó piedade, compaixão

  • "Que falta de sorte você não ter passado no concurso"
  • "Que azar esse namoro não ter dado certo", 
  • "Estou muito chateada por você não ter passado no vestibular."

Lembre-se: Empatia é diferente de compaixão.

Compaixão: "Estou sofrendo junto com você por esta perda inestimável"

Empatia "Entendo o quanto você deva estar sofrendo por esta perda inestimável"

EMPATIA É compreender o que o outro está sentindo, compreender o alcance da dor emocional (ou física), mas não precisa sentir o que o outro sente. Sentir o que o outro sente é COMPAIXÃO. 

Saiba mais sobre a diferença entre EMPATIA e COMPAIXÃO

Nosso Paciente Psicológico não precisa da nossa compaixão, nem da nossa piedade, mas sim, da nossa empatia (e também da nossa simpatia, claro)


7. Não demonstrar Empatia

Creio que não exista nada pior do que conversar com alguém que não demonstre a mínima compreensão sobre o que estamos falando (eu já passei por isso, em outro contexto).

Como eu disse anteriormente, o paciente que nos procura não está implorando por compaixão, mas certamente espera nosso entendimento sobre seu caso, da forma mais técnica e profissional e empática possível.

Porém, ele não sabe como trabalhamos, não conhece nossas técnicas, nossas teorias e nossas abordagens; não tem obrigação alguma de saber que estamos sendo empáticos com ele, se não fizermos movimentos que sugiram uma atitude empática.

Psicólogos: O que não se deve falar para o paciente

Para aqueles que querem se aprofundar mais no conceito de Empatia Terapêutica, sugiro que revisitem a obra do Grande Pensador, Psicólogo e Educador, CARL ROGERS. 

8 -  Ameaçar abandonar o paciente

A interrupção de um tratamento Psicológico deve ser conversada já no primeiro atendimento, antes que o paciente comece a falar das suas demandas e de preferência devem estar documentadas em algum lugar (no site, ou mesmo um contrato terapêutico).

 Em hipótese nenhuma o paciente pode sofrer com este tipo de ameaça, por exemplo:

 "Se você não se comprometer vou interromper sua sessão". Nunca!

9 - Ameaçar quebra de sigilo.

Além de antiético é extremamente preocupante conceber que suas informações poderão sair do contexto da Psicoterapia.

Nunca vi isso acontecer, mas fica a dica.

10 - Falar mal do Psicólogo anterior.

Muitos Psicólogos, infelizmente caem nesta armadilha, acreditando que desta forma, estão "empatizando" como paciente.

Não só, isto não é verdade, como é antiético, do nosso ponto de vista. 

Vamos relembrar o que diz nosso Código de Ética  neste sentido, no art 10:


Art. 10º A crítica a outro Psicólogo será sempre objetiva, construtiva, comprovável e de inteira responsabilidade de seu autor.

Existem outros pontos importantes, no tópico: "Das relações com outros profissionais". 

Mesmo que o teu paciente tenha sido claramente mal atendido por outros Psicólogos, não cabe a você reafirmar isso. Mantenha o bom senso.


11. Falar que está se sentindo mal em atender este tipo de caso.

Eu nem quero acreditar que isso aconteça (nunca vi acontecer na Psicologia). Mas sei que algumas abordagens da Psicoterapia permitem este tipo de comentário.

Porém, conforme aprendemos lá no começo da nossa formação acadêmica, no segundo ano do curso de psicologia, especificamente nas aulas de Psicanálise Freudiana, temos que aprender a manejar as relações de contratransferência, levando nossas questões emocionais para nossa psicoterapia e não para nosso paciente.

Se a demanda do paciente estiver causando desconforto, por alguma questão emocional que você, Psicólogo tenha, sugere-se que:

  • Procure Psicoterapia, voltada para Psicólogos; e/ou
  • Encaminhe seu paciente para outro colega que tenha condições emocionais de atendê-lo satisfatoriamente e de maneira imparcial.

"Entende-se por contratransferência as emoções que o terapeuta experimenta no decorrer de uma análise, em relação ao paciente, e que são relacionadas com circunstâncias sentidas na sua própria vida, que o afetaram consciente e inconscientemente."

Porto Editora – contratransferência na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2022-01-27 13:54:38]. Disponível em 

12. Falar coisas que sugiram intimidade maior  do que o momento profissional propõe.

Com o tempo, nossa relação com os pacientes vai ficando mais próxima, e mais íntima. Porém é preciso relembrar que esta intimidade é unilateral ( dele para conosco, não o contrário).

Claro, que com o tempo, até podemos "soltar" algumas coisas muito pontuais sobre nossa vida pessoal, desde que não afetem o tratamento do paciente. 

Não é de bom-tom falar de nossas angústias, nossos sofrimentos emocionais, pois isso nos coloca numa posição invertida, deixando o paciente inseguro a respeito do nosso profissionalismo. Neste caso, convém procurar Terapia para Psicólogos.


13. Cuidado ao tratar de questões financeiras

Se o paciente não cumprir com suas obrigações financeiras, tome muito cuidado ao tratar deste assunto.

Cobrar um débito em atraso não é fácil em nenhuma área dos negócios. Na nossa é um pouco mais complicado, porque as vezes, envolvem justamente as questões emocionais que o paciente está tratando. 

No entanto, nós também temos nossos compromissos que precisam ser cumpridos rigorosamente no prazo, para que possamos continuar a atender (Aluguel de sala, Anuidade CRP, Conexão de Internet, Cursos, Cuidados básicos com a saúde, etc).

Estas questões tem de ser resolvidas com muita serenidade. Se você, Psicólogo não sabe como resolver este tipo de conflito, sugiro que procure Supervisão


14. Falar mal das pessoas que fazem parte da vida do paciente

Outra armadilha que deve ser evitada.

Quando for absolutamente necessário mostrar para o paciente que ele ou ela está numa relação abusiva ( o que é muito frequente na nossa profissão) existem formas sutis e profissionais de fazê-lo.

Para aprender como falar sobre isto,  sugiro que procure Supervisão


15 -  Discutir com Paciente nas Redes Sociais

Quando as avaliações do Google surgiram (há cerca de 10 anos atrás aproximadamente), era um deus-nos-acuda levar uma avaliação negativa.

Era comum ver profissionais (isso não só psicólogos), rebaterem as críticas com ofensas (as vezes) até piores do que as que receberam.

Agora as coisas estão mais tranquilas, ou menos conflituosas. 

Nós profissionais, estamos aprendendo a lidar de cabeça erguida com este tipo de situação que saiu do Status de desagradável, para o status de normal, afinal praticamente todo bom prestador de serviço já tomou avaliação negativa nas redes sociais e sobreviveu a isso tranquilamente.

Mas isso não significa que devamos responder à altura, porque:

1.) É algo que temos que tratar com naturalidade, afinal vivemos em um mundo hiperconectado.

2) Dependendo da resposta, estamos expondo particularidades da vida do paciente o que pode caracterizar quebra de sigilo.

3) Porque somos profissionais sérios, procurando entender o que levou o paciente a fazer a avaliação negativa, e que não se trata de algo pessoal.

4) Pode ser uma forma que o paciente encontrou de desabafar, transferindo para nós, Psicólogos, algo que ele já passou na vida.

Porém,

Isto não significa que podemos aceitar injúrias, calúnias ou difamações. Há uma enorme diferença entre reclamar do Psicólogo e difamar/caluniar o psicólogo.

Uma coisa é um paciente reclamando que "ninguém atende o telefone", ou que o "psicólogo esqueceu seu nome", ou o "psicólogo chegou atrasado". 

Outra coisa é o paciente acusando o Psicólogo de tê-lo maltratado, distorcendo o atendimento apenas para prejudicar a imagem do Psicólogo. Se isto acontecer, você pode abrir um processo civil e pedir aos provedores que retirem a avaliação. Saiba mais sobre calúnia e difamação neste post.


16. Falar mais que o paciente

Eu costumo limitar meu tempo de discurso em (no máximo) 20% do tempo. Quando preciso dar explicações técnicas sobre algum assunto, chego a 30%.

Salientando que a terapia é dele(dela). São eles que devem falar, não nós....

A rotatividade de pacientes Psicológicos

Como Psicólogos experientes que somos, sabemos que a rotatividade de pacientes tem sido bastante alta, especialmente depois da pandemia da COVID-19.

Muitos pacientes, seja por questões financeiras, seja por falta de tempo ou por falta de rapport, mudam de psicólogo mais de uma vez por ano.

Percebe-se, neste movimento, que há um grande interesse por parte do paciente de permanecer em terapia. 

Então, porque não permanecem? Por que mudam de Psicólogo?

Será que não há abertura suficiente para que este paciente fale sobre suas dificuldades em permanecer no atendimento e negociar com o psicólogo a flexibilização do preço da terapia, dos horários e da postura?

São questões para refletirmos. 

Não vou demorar tratando de temas como falta de agenda, ou questões financeiras, mas sim, tratando de questões relacionadas à forma de abordar o paciente, que tem sido um tema muito frequente nos meus supervisionados.

Pra tudo há um limite.


Algumas Frases de Carl Rogers. Que o Grande Mestre nos Inspire hoje e sempre!


Nas minhas relações com as pessoas descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como se eu fosse alguma coisa que eu não sou. (p. 28)
2. Descobri que sou mais eficaz quando posso ouvir a mim mesmo aceitando-me, e quando posso ser eu mesmo. … Julgo que aprendi isto com meus clientes, bem como através da minha experiência pessoal – não podemos mudar, não podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos. (p.29)
3. Atribuo um enorme valor ao fato de poder me permitir compreender uma outra pessoa.(p.30)
4. Verifiquei que me enriquece abrir canais através dos quais os outros possam comunicar os seus sentimentos, a sua particular percepção do mundo.(p.31)
5. É sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa.(p.32)
6. Quanto mais aberto estou às realidades em mim e nos outros, menos me vejo procurando, a todo o custo, remediar as coisas.(p.33)
7. Posso ter confiança na minha experiência. … quando sinto que uma atividade é boa e que vale a pena prossegui-la, devo prossegui-la.(p.34)
8. A apreciação dos outros não me serve de guia. Apenas uma pessoa pode saber que eu procedo com honestidade, com aplicação, com franqueza e com rigor, ou se o que faço é falso, defensivo e fútil. E essa pessoa sou eu mesmo.(p.34)
9. A experiência é para mim a autoridade suprema.(p.35)
10. Sinto-me satisfeito pela descoberta da ordem pela experiência. … A investigação é um esforço persistente e disciplinado para conferir um sentido e um ordenação aos fenômenos da experiência subjetiva. (p.36)
11. Os fatos são sempre amigos. O mínimo esclarecimento que consigamos obter, seja em que domínio for, aproxima-nos muita mais do que é a verdade. (p.37)
12. Aquilo que é mais pessoal é o que há de mais geral. (p.37)
13. A experiência mostrou-me que as pessoas têm, fundamentalmente, uma orientação positiva. … Acabei por me convencer de que quanto mais um indivíduo é compreendido e aceito, maior tendência tem para abandonar as falsas defesas que empregou para enfrentar a vida, e para progredir num caminho construtivo.(p.38)
14. A vida, no que tem de melhor, é um processo que flui, que se altera e onde nada está fixado.(p.38)
Penso que é possível agora ver claramente por que razão não existe filosofia, crença ou princípios que eu possa encorajar ou persuadir os outros a terem ou a alcançarem. não posso fazer mais do que tentar viver segundo a minha própria interpretação da presente significação da minha experiência, e tentar dar aos outros a permissão e a liberdade de desenvolverem a sua própria liberdade interior para que possam atingir uma interpretação significativa da sua própria experiência. (p.39)

Rogers Carl R. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1991


Referências

TELLES, Thabata Castelo Branco; BORIS, Georges Daniel Janja Bloc  e  MOREIRA, Virginia. O conceito de tendência atualizante na prática clínica contemporânea de psicoterapeutas humanistas. Rev. abordagem gestalt. [online]. 2014, vol.20, n.1 [citado  2019-09-20], pp. 13-20. Disponível em: 



O Paciente insatisfeito com o trabalho do Psicólogo

Eu recebo, em média 30 novos pacientes por semana. E alguns vieram de outros Psicólogos e se mostram frustrados, cansados e desacreditados da Psicologia como ciência e profissão.

E mesmo que eu não pergunte o motivo pelo qual desistiram do atendimento anterior, eles acabam por falar.

Em alguns casos, o abandono está relacionado com a postura do Psicólogo, ou algo que foi dito durante a sessão de terapia e não foi "legal".

Sendo assim, resolvi criar uma listinha das coisas que jamais podemos falar para um paciente (exceto em situações especiais, ou quando o momento terapêutico permitir).

Suponho que você, colega Psicólogo que esteja lendo este artigo, tenha sensibilidade suficiente para perceber isto. Se não tiver, procure uma boa supervisão, que poderá lhe ajudar a agregar ferramentas para aprimorar sua prática profissional




Psicólo

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