Psicóloga comenta o relacionamento marcado por traços de narcisismo
Quando o conto de fadas vira um feitiço: relacionamento marcado por traços de narcisismo
Todo começo parece história de encantar
Lembra de como tudo começou?
Atenção de sobra, elogios, mensagens a qualquer hora, a sensação de ter finalmente encontrado alguém que entende você. É uma cena que quase todo mundo sonha em viver.
Mas, em relacionamentos com forte presença de narcisismo, a história pode mudar de rumo sem aviso.
Aos poucos, o brilho dá lugar a desvalorização, a críticas e a um vínculo em que só um lado parece ter direito de ser cuidado.
Quando esses comportamentos ficam mais acentuados, podem surgir formas de manipulação afetiva.
É aquela sensação estranha de pedir desculpas por coisas que você nem fez e de duvidar da sua própria percepção: “será que eu estou exagerando?”
Se você se reconhece nessa pergunta, saiba que você não está sozinha(o) e que a sua dúvida merece ser ouvida com cuidado.
Em relações marcadas por traços de narcisismo, pode aparecer uma percepção inflada de si e pouca abertura para a reciprocidade emocional. Na prática, isso costuma significar que as suas necessidades ficam sempre para depois.
O resultado tende a ser uma convivência com exigências rígidas e uso recorrente de pressão ou chantagem emocional.
E isso quase nunca acontece de uma hora para outra: costuma se instalar de forma gradual, muitas vezes com parceiros mais empáticos ou em fases de maior fragilidade emocional.
Ter empatia, generosidade e vontade de fazer dar certo não é defeito.
São qualidades bonitas, que merecem ser cuidadas e não usadas contra você.
Afinal, o que é o narcisismo?
Antes de mais nada, vale entender o que a ciência diz. Na psicologia, o narcisismo é compreendido assim:
“O narcisismo primário designa um estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma. O narcisismo secundário designa um retorno ao eu da libido retirada dos seus investimentos objetais” (Laplanche e Pontalis).
Em outras palavras: todos nós temos algum grau de amor por nós mesmos, e isso é saudável. O ponto de atenção aparece quando esse movimento ocupa tanto espaço que sobra pouco lugar para o outro.
O que tradicionalmente foi chamado de transtorno de personalidade narcisista é descrito no DSM-5-TR como um padrão persistente de grandiosidade, necessidade intensa de admiração e dificuldades de empatia e reciprocidade relacional.
Já a CID-11 mudou o modelo diagnóstico dos transtornos de personalidade: não utiliza mais categorias fechadas como “transtorno narcisista”, adotando uma avaliação dimensional baseada em grau de comprometimento e traços predominantes, entre eles os traços narcisistas.
Por isso, neste material, não utilizamos a sigla TPN. Falamos de traços e dinâmicas de narcisismo, que podem aparecer em diferentes intensidades nos relacionamentos. Aqui não há vilões nem rótulos: o foco é ajudar você a enxergar o que está acontecendo.
E o que acontece com quem vive essa história?
É comum que a pessoa que convive com esse tipo de relação sinta baixa autoestima, ansiedade e tristeza profunda. Não é fraqueza: é o desgaste natural de quem tenta, por muito tempo, se adaptar a uma relação que cobra demais e acolhe de menos.
Muitas pessoas, nesse momento, decidem buscar ajuda emocional.
Na psicoterapia, você ganha um espaço seguro para compreender e analisar os fatores que mantêm você nesse tipo de relacionamento, reencontrar a confiança na própria percepção e decidir, no seu tempo, quais são os próximos passos.
Cada caminho é único, e nenhum profissional pode prometer resultados, mas o acolhimento e a escuta fazem diferença desde o primeiro encontro.
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Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5-TR. Washington, DC, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Doenças – CID-11. Genebra, 2019.
LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BECK, Aaron T. Terapia cognitiva e os transtornos emocionais. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do esquema. Porto Alegre: Artmed, 2008.