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Os Psicólogos e a Política Brasileira

Os Psicólogos e a Política Brasileira – Psicóloga SP

O Código de Ética do Psicólogo estabelece diretrizes claras para a atuação profissional. Em seu artigo 2º, está expresso que é vedado ao psicólogo induzir convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas ou de qualquer outra natureza durante o exercício de suas funções. Essa orientação reforça a importância de preservar a autonomia do paciente e de evitar qualquer forma de influência indevida no contexto da prática clínica.

Fonte: Nota de orientação sobre laicidade e religião – CRP PR

No cotidiano da clínica psicológica, o foco do trabalho permanece no indivíduo e em suas singularidades. 

O objetivo central do processo psicoterapêutico é compreender as particularidades da experiência subjetiva e auxiliar a pessoa a refletir sobre seus sentimentos, conflitos e modos de lidar com as próprias dificuldades. Nesse contexto, a função do psicólogo não é defender correntes políticas ou ideológicas, mas oferecer um espaço de escuta qualificada e de análise das questões emocionais trazidas pelo paciente.

Muitas pessoas procuram a psicoterapia em momentos de desgaste psíquico significativo. Frequentemente chegam ao consultório após experiências de frustração, incompreensão ou conflitos interpessoais. Em tais circunstâncias, a expectativa principal costuma ser encontrar um ambiente em que seja possível falar livremente sobre pensamentos e sentimentos, sem medo de julgamento ou censura.

O setting terapêutico, portanto, constitui um espaço destinado à escuta e à reflexão. Nesse ambiente, o profissional busca compreender o significado das experiências relatadas pelo paciente e a forma como elas se manifestam em sua vida emocional. Não se trata de um espaço para sermões ideológicos, mas para o acolhimento da experiência humana em sua complexidade.

Em termos filosóficos, essa postura dialoga com contribuições da fenomenologia. 

Para autores como Martin Heidegger, aquilo que se apresenta à consciência se manifesta como fenômeno, isto é, como algo que aparece à experiência vivida do sujeito. O trabalho clínico, nesse sentido, volta-se para a compreensão desse fenômeno tal como ele se apresenta ao paciente.

De forma semelhante, Edmund Husserl propôs o método da redução fenomenológica ou eidética, que busca suspender pressupostos prévios para compreender a essência da experiência. Na prática clínica, essa inspiração metodológica se traduz no esforço de observar e analisar o fenômeno psicológico sem impor interpretações externas ou juízos ideológicos.

Por essa razão, as convicções políticas pessoais do psicólogo não devem interferir na relação terapêutica. Caso existam, pertencem ao âmbito privado do profissional e não ao espaço clínico. O compromisso ético permanece com o cuidado psicológico e com a compreensão da experiência subjetiva do paciente.

Mudanças políticas e ideológicas fazem parte da dinâmica das sociedades. Governos se alternam, programas políticos são substituídos e visões de mundo se transformam ao longo do tempo. Entretanto, os conflitos existenciais – como perdas, frustrações, rejeições e dúvidas sobre o próprio caminho – continuam a fazer parte da experiência humana. A psicoterapia se dedica justamente à compreensão dessas vivências.

Quando o tema político surge na sessão

Em alguns momentos, o próprio paciente pode trazer questões relacionadas à política ou até perguntar diretamente sobre a posição do psicólogo. Nesses casos, a situação exige sensibilidade clínica e atenção ao significado da pergunta no contexto da relação terapêutica.

Uma pergunta aparentemente simples, como “Em quem a senhora vai votar?”, pode ter diferentes sentidos psicológicos. Às vezes, o paciente busca avaliar se será julgado por suas opiniões; em outras ocasiões, pode estar testando a neutralidade do profissional ou expressando inseguranças relacionadas à aceitação.

Em vez de responder diretamente sobre suas próprias convicções, o psicólogo pode explorar o significado da questão para o paciente. Perguntas como “O que torna essa informação importante para você neste momento?” podem abrir espaço para compreender medos, expectativas ou experiências prévias que influenciam essa preocupação.

Esse tipo de abordagem preserva o princípio ético de não indução ideológica e, ao mesmo tempo, mantém o foco no processo terapêutico

A atenção retorna àquilo que motivou a busca por atendimento: o sofrimento psíquico ou o conflito emocional que a pessoa deseja compreender.

Neutralidade e compromisso com o paciente

A postura clínica orientada pela ética profissional busca evitar posicionamentos que possam interferir na liberdade de pensamento do paciente. Isso não significa ignorar temas sociais ou políticos quando eles fazem parte da experiência subjetiva da pessoa, mas sim abordá-los como fenômenos psicológicos relevantes para a compreensão de sua vivência.

O compromisso central da prática psicológica permanece com o paciente e com sua singularidade. 

A tarefa do profissional consiste em oferecer escuta, análise e reflexão, contribuindo para que o indivíduo compreenda melhor suas emoções, seus valores e suas escolhas.

Assim, independentemente das transformações do cenário político ou das diferentes correntes ideológicas presentes na sociedade, o trabalho clínico continua orientado por um princípio fundamental: colocar a experiência humana do paciente no centro do processo terapêutico, preservando a ética, o respeito e a responsabilidade profissional.


HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2005.

HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999.

HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Tradução de Gabriella Arnhold e Maria de Fátima Almeida Prado. Petrópolis: Vozes, 2001.


Edmund Husserl

HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1990.

HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. Tradução de Márcio Suzuki. Aparecida: Ideias & Letras, 2006.

HUSSERL, Edmund. A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental. Tradução de Diogo Falcão Ferrer. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.




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