Você já sentiu que o clima em almoços de família ou grupos de mensagens mudou completamente?
Hoje, parece que as pessoas não estão apenas discordando sobre ideias; estão rompendo laços com pessoas que amam por causa de visões de mundo diferentes.
Na psicologia e na ciência política, damos a isso o nome de"Polarização Afetiva"
Diferente de uma simples discussão de opiniões, a polarização afetiva mexe as nossas emoções. E calro, acaba por dificultar os relacionamentos.
O que é a Polarização Afetiva?
Imagine que o mundo se dividiu em dois grandes times: a Ideologia X e a Ideologia Y.
Antigamente, você poderia achar que quem defendia a "Ideologia Y ou Z" estava apenas enganado.
Hoje, a sensação é outra: quem pensa diferente de você parece ser uma "ameaça" ou alguém com valores morais duvidosos.
O foco deixou de ser a discussão de propostas e passou a ser o afeto (ou a falta dele). Começamos a sentir:
Desconfiança: "Se ele pensa assim, não posso confiar nele".
Desprezo: "Como alguém pode ser tão cego?".
Medo: "Se esse grupo vencer, o meu modo de vida vai acabar".
Por que isso dói tanto?
Nós, seres humanos, temos uma necessidade ancestral de pertencer a um grupo.
Quando nos identificamos fortemente com a Ideologia X, nosso cérebro entende que todos os que defendem a Ideologia Y são "estranhos" ou "inimigos".
Isso gera um estado de alerta constante, o que aumenta o estresse e a ansiedade.
O resultado é o que vemos por aí: amigos de infância que não se falam mais e parentes que se bloqueiam nas redes sociais.
Como proteger sua saúde mental (e suas relações)
Se você está cansado desse clima de "guerra" constante, aqui estão três passos práticos para desarmar essa bomba emocional:
Lembre-se da pessoa por trás da ideia: Antes de ser um defensor da "Ideologia Y", aquele seu amigo é a mesma pessoa que te ajudou em um momento difícil. Tente resgatar memórias que não tenham nada a ver com política.
Faça uma "dieta" de redes sociais: Os algoritmos lucram com a nossa raiva. Eles mostram o pior do outro lado para te manter engajado. Tente se informar por fontes mais equilibradas e diminua o tempo de tela.
Troque o "convencer" pelo "ouvir": Em vez de entrar em uma discussão para ganhar, tente entender o que move o outro. Pergunte: "O que te faz pensar assim?". Muitas vezes, por trás de uma opinião radical, existe um medo ou uma preocupação legítima.
Isso vai passar?
Com certeza, vai. E possivelmente, em breve!
A história nos mostra que esses períodos de muita tensão são cíclicos.
Com o tempo, o cansaço mental de viver em conflito tende a gerar um desejo coletivo de paz e "normalidade".
A polarização não desaparece da noite para o dia, mas ela perde força quando decidimos que nossas relações humanas valem mais do que as siglas que defendemos.
Até mesmo nas esferas políticas, quando os lideres se "cansam" de dar "murros em ponta de faca", permitem-se baixar a guarda e (em muitos casos) aliar-se aos antigos adversários.
A história do Brasil é marcada por momentos em que a sociedade se divide profundamente entre "nós contra eles".
O que estamos vivendo hoje não é um evento único, mas parte de um ciclo que já aconteceu em outras décadas.
O país já "pegou fogo" antes e depois encontrou caminhos de distensão. Aqui estão os principais exemplos:
1. Os Anos 30: "Camisas Verdes" vs. "Aliança Nacional"
Na década de 1930, o Brasil viveu uma polarização que refletia o que acontecia na Europa (Fascismo vs. Comunismo).
A Tensão: De um lado, os Integralistas (Ideologia X, conservadores e nacionalistas); do outro, a Aliança Nacional Libertadora (Ideologia Y, de esquerda e progressista).
O Clímax: Houve confrontos físicos nas ruas e tentativas de tomada de poder de ambos os lados. Parecia que o país entraria em guerra civil. Mas não entrou.
O Ciclo: O conflito foi tão intenso que abriu caminho para a centralização de Getúlio Vargas. Após anos de tensão, o país entrou em um período de foco no desenvolvimento industrial, e aquelas milícias políticas acabaram perdendo força.
2. O Início dos Anos 60: Reformas vs. Conservadorismo
Antes de 1964, o Brasil estava partido ao meio. A política não era feita de propostas, mas de "comícios" e "marchas".
A Tensão: A "Ideologia X" pedia reformas de base profundas e rápidas. A "Ideologia Y" temia o caos social e defendia a "família e a liberdade".
O Clímax: Famílias pararam de se falar e o Congresso Nacional ficou paralisado pelo ódio mútuo entre as legendas.
O Ciclo: Após o trauma do período autoritário que se seguiu, o país viveu um movimento de união impressionante nos anos 80: as Diretas Já, onde pessoas de todas as ideologias se deram as mãos por um objetivo comum.
3. A Redemocratização: A "Frente Ampla" (Anos 80)
Esse é o melhor exemplo de como o ódio pode dar lugar à construção.
O Cenário: O Brasil vinha de 20 anos de uma divisão rígida entre quem apoiava o regime e quem era oposição.
A Virada: Lideranças que foram inimigas mortais por décadas decidiram sentar à mesma mesa para escrever a Constituição de 1988. Políticos de ternos conservadores e líderes sindicais de camiseta trabalharam juntos.
O Ciclo: Foi um período de "paz política" relativa que durou quase duas décadas, onde a alternância de poder acontecia de forma civilizada (um período de disputas acirrado, mas não "odioso" no nível pessoal).
Depois de décadas de incerteza e inflação descontrolada, o Brasil viveu, a partir de 1994, um período que mostrou que a política pode ser feita com civilidade.
O Foco na Vida Real: Com o Plano Real no governo FHC, a energia da população saiu da 'briga ideológica' e foi para a organização da vida prática. Quando a economia se estabilizou, o medo do futuro diminuiu, e com menos medo, há menos espaço para o ódio.
Oposição não é Inimizade: Naquela época, havia uma oposição fortíssima entre os grupos de visão X e Y, mas as regras eram respeitadas. Os políticos debatiam no Congresso e as pessoas debatiam nas ruas, mas o vizinho não era visto como um monstro. Havia uma margem de respeito porque o país estava focado em crescer.
O Valor do Centro: Esse período provou que o Brasil prospera quando busca o equilíbrio. Foi uma época de construção de instituições que beneficiaram a todos, independentemente de quem você votasse.
Veja o que aconteceu em outros momentos:
O ódio cansa: Nos anos 30, o Brasil estava nas ruas literalmente brigando fisicamente por ideologias opostas. Parecia o fim da linha. Mas o que veio depois foi um desejo de construção e de focar na vida real, no trabalho e na família. As pessoas cansaram de ser soldados de causas e voltaram a ser cidadãos.
O reencontro é possível: Nos anos 80, pessoas que passaram 20 anos se odiando e se vendo como inimigas mortais perceberam que, para o país andar, elas precisariam sentar à mesma mesa. E elas sentaram. O que parecia impossível — o aperto de mão entre opostos — aconteceu porque o desejo de paz ficou maior que o orgulho.
O ruído passa, os vínculos ficam: Esses momentos de 'febre política' são como tempestades. Elas fazem muito barulho, derrubam algumas árvores, mas elas passam. O que sobra depois é o que é real: a nossa cultura, a nossa capacidade de conviver e os nossos afetos.
O convite para você hoje é: Não deixe que essa 'febre' do momento te convença de que o futuro é só isso. O Brasil já 'pegou fogo' outras vezes e nós sempre encontramos uma maneira de reconstruir as pontes. O ódio é uma fase, não é o destino final
Mostrar esses exemplos ajuda a tirar o peso de "fim do mundo" do momento atual. Podemos pontuar que:
O ódio cansa: Manter esse nível de energia negativa é psicologicamente insustentável para as massas no longo prazo.
O pêndulo sempre volta: Sempre que o Brasil foi longe demais para um extremo de briga, surgiu um movimento de "chega de confusão" que forçou as lideranças a moderarem o tom.
Instituições sobrevivem: Apesar das crises, o Brasil construiu mecanismos (como a Constituição de 88) que ajudam a absorver esses choques sem que a sociedade se desintegre.
